[Limite]Por Marcos Lucchesi
Tudo na vida tem limite. Limite de velocidade, limite de consumo, até a matemática possui uma disciplina que se chama “limite”. O texto que você está lendo chegará ao final ou porque encontrou o limite de tempo para ser produzido ou porque esgotou as ideias a serem expostas deixando claro que, por mais abrangente que seja um tema, chegará um momento em que este será (de)limitado.
As ideias têm limites e eles são os responsáveis pelas suas diferenças. Embora todas as ideias estejam misturadas em um grande liquidificador e espalhadas por todo o mundo, seria frustrante não encontrar algum limite que pudesse diferençar ideias que não se “aproximam”.
No entanto, nem todo o limite é igual. Nem tudo é só esquerda ou só direita, só preto ou só branco, nem 08, nem 80. Existem o meio, o cinza, e existe também o número 44, responsável por determinar a divisão exata pela metade entre esses dois números e tornar possível a chegada até o número 80.
O espaço tem limite. E a palavra escolhida para esse limite talvez seja fronteira. Existem fronteiras em todo canto, e cabe destacar que até o termo “canto” já estabelece uma relação com certo tipo de fronteira. “Estou no meu canto.” Poderia também ser pronunciado como “Estou dentro dos meus limites, protegido pela minha fronteira.” E não que esse limite, aqui chamado de fronteira, seja somente aplicado aos espaços físicos, como “o meu quarto”, “a minha casa”, “o meu país”. “O meu espaço” também diz respeito às coisas que eu penso, que por serem definidas e, portanto (de)limitadas, não se aproximam com outras coisas também definidas e (de)limitadas que, devido à inúmeras ordens naturais e construções sociais, são tratadas como “diferentes”.
Assim, o limite também interfere na construção do que é diferente: o que está fora do limite estabelecido – ou seja, o limite “padrão” – é considerado diferente. Daí desdobra-se e revelam-se as ideias, os desejos, as frustrações e as relações do homem.
Como estabelecer um limite à liberdade, ou à igualdade? É claro que não podemos negar que a nossa sociedade estabelece limites para que a nossa convivência seja, digamos, mais agradável. “Como aceitar ser assaltado por um menino de rua?” Uma situação como essa excede os limites “aceitáveis” de uma sociedade com “bons modos” e padrões “desenvolvidos” de relação.
A fome de cada um tem limite. Embora os gulosos não concordem com essa afirmação, é natural perceber que o nosso estômago tem uma determinada capacidade e, portanto, também possui um limite. E por falar em fome – só por curiosidade – qual deve ser diferença entre a capacidade (limite) do meu estômago para a do menino de rua que fora citado no parágrafo acima?
A paciência também tem limite. Mas acredito que seja um dos limites mais relativos. É diferente estabelecer qual será o limite da paciência enquanto se espera a pessoa amada se aprontar para um jantar ou enquanto se espera naquela fila quilométrica do banco.
Passam muitas coisas na minha cabeça. Mas, sendo artista, não posso deixar de falar sobre a minha arte, o meu ofício. Será que a arte tem limite? Sempre pensei: “Será que algum dia, com tantas combinações, texturas e formas, seria possível limitar alguma forma de expressão artística?”. É claro que quando se fala em arte, em todas as suas expressões, conseguimos encontrar muita coisa parecida. Mas o que sempre me intrigou foi que, embora parecidas, as obras nunca são iguais. Ou seja, o limite estabelecido pelo artista “x” é diferente da fronteira que o artista “y” escolheu para dar por “acabada” a sua obra. (isso sem considerar as obras inacabadas, que dão pano de fundo pra uma discussão bem mais ampla...)
Pode ser que depois de tentar ampliar as fronteiras da minha reflexão acerca dessa simpática palavrinha, eu tenha na realidade esgarçado uma porta para uma das principais capacidades do ser humano: pensar. E pra finalizar, sem querer ser piegas ou cair na tentação de usar alguma frase de efeito, deixo aos leitores a seguinte questão: “Existem limites para pensar?”